Ofensa de Jorginho Mello a indígenas expressa ‘política de ataque’, afirma deputado
Fala do governador de SC em visita à barragem de José Boiteux gerou repúdio de lideranças Xokleng e da oposição. Marquito (PSOL) aponta falta de consulta prévia e histórico de violações a povos originários.
A conduta do governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), durante visita às obras da barragem de José Boiteux, no Vale do Itajaí, segue repercutindo politicamente. O governador usou xingamentos ao se referir a mulheres indígenas no local, situado dentro do território tradicional do povo Xokleng, e declarou que estava no município para “restaurar o que havia sido destruído pelos indígenas”.
Em entrevista à Rádio Brasil de Fato, o deputado estadual Marquito (PSOL) classificou a atitude do chefe do Executivo catarinense como reprovável, mas destacou que o episódio não surpreende diante do alinhamento do governo estadual. Segundo o parlamentar, a fala verbalmente violenta contra a cacica Antonia reflete um padrão de não reconhecimento dos direitos dos povos originários e de falta de reparação histórica no estado.
“Existe uma estrutura, um ponto de vista do não reconhecimento, do apagamento e da continuidade das violações que esse povo vem sofrendo desde as missões de colonização em Santa Catarina”, afirmou o deputado.
Falta de escuta e desrespeito a rituais
Lideranças locais e a oposição apontam que o projeto da barragem desconsiderou obrigações básicas de escuta à comunidade atingida, etapa que deveria ser assegurada por convenções e pelo processo de licenciamento ambiental.
A cacica Antonia relatou que, durante a chegada da comitiva governamental, a comunidade realizava um ritual tradicional e recebeu ordens do governador para interromper a manifestação:
“Ele mandou a gente parar de cantar, era para nós ficarmos quietos porque ele estava dando a entrevista dele. Eu não vou chegar na casa dele dando ordem”, rebatia a liderança indígena.
Disputa sobre o Marco Temporal e políticas públicas
O episódio recoloca no centro do debate a relação do governo catarinense com a pauta indígena e social. O deputado Marquito relembrou que, apesar de o Censo apontar quase 23 mil pessoas autodeclaradas indígenas no estado, o governo atual apoia teses como a do marco temporal e adota posturas contrárias a certas diretrizes nacionais, a exemplo da não adesão ao Pacto Nacional pela Vida das Mulheres.
O parlamentar também criticou as condições precárias observadas em estruturas locais de atendimento às comunidades, mencionando relatórios sobre a educação indígena no estado que apontam salas de aula sem estrutura adequada, além de falhas na oferta de transporte e alimentação escolar.


